Como a iniciativa Belt and Road da China terá impacto sobre os sistemas alimentares brasileiros?

Excelente artigo escrito por Adrian H. Hearn para o blog ASIA DIALOGUE

Pedi a eles autorização para republicar me Português porque achei muito interessante o estudo para o nosso agronegócio brasileiro. Leitura obrigatória para todos os estudantes, trabalhadores e empresários do Brasil.

O artigo original em inglês está com o título How will China’s Belt and Road Initiative impact on Brazilian food systems? e pode ser acessado por este link.

A desaceleração do boom global da mineração fez com que a agricultura se tornasse mais proeminente nas relações comerciais e de investimento da América Latina com a China, com implicações para o uso da terra em ambas as regiões. Para o Brasil, o crescimento sustentado das exportações para a China (de US $ 1 bilhão em 2000 para US $ 35 bilhões em 2016) passou a depender da expansão da produção de soja. A demanda por soja brasileira se correlaciona com a implementação do Novo Plano de Urbanização da China, cuja tentativa de aumentar a população urbana do país para 860 milhões de pessoas desencadeou o consumo de carne suína de classe média sustentado por ração animal à base de soja. Uma nova onda de industrialização está, assim, transformando as geografias de produção e consumo nos dois países, gerando novos desafios para os sistemas alimentares urbanos no processo.

Empresas estatais chinesas e instituições financeiras, que juntas conduzem a grande maioria das transações comerciais e de investimento chinesas no Brasil, estão bem posicionadas para apoiar a produção sustentável de alimentos em pequena escala nas zonas periurbanas brasileiras. Isso proporcionaria um equilíbrio muito bem-vindo às grandes operações industriais de empresas chinesas, americanas, européias e domésticas no setor de soja. Conforme discutido abaixo, a evolução da Iniciativa Faixa e Estrada (BRI) para promover infra-estrutura ambientalmente responsável oferece às empresas chinesas a oportunidade de se engajar em tais projetos. Investir na sustentabilidade e diversidade dos sistemas alimentares geraria benefícios a longo prazo para produtores e consumidores chineses e brasileiros. Isso melhoraria a imagem das empresas chinesas no exterior e abriria caminho para uma verdadeira “comunidade de futuro compartilhado para a China e a América Latina”, como articulado pelo presidente chinês Xi na Cúpula de 2014 da CELAC (Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos).

Caminho para o desenvolvimento?

A demanda por metais, energia e alimentos gerados pelas cidades em crescimento na China sustentou a América do Sul através da turbulência econômica global das últimas duas décadas. O agronegócio brasileiro, em particular, atraiu o interesse de governos de todo o mundo interessados ​​em aprofundar seu comércio com a China, mas também está gerando problemas em ambos os lados do Pacífico que não foram vistos com mineração, gás, petróleo e outras atividades extrativas.Objeções do lado da oferta à perda de diversidade de culturas em zonas rurais e periurbanas, intensificação de insumos químicos e impactos ambientais associados estão interligadas com a suspeita de padrões de segurança, alimentos processados ​​não saudáveis ​​e desconexão pessoal com o processo produtivo.

O Brasil não é o único país da América Latina – e a agricultura não é o único setor – a testemunhar os impactos ambientais do aprofundamento das relações de comércio e investimento com a China. Um estudo recente de projetos de infraestrutura chineses na região descobriu que as empresas chinesas “não costumam buscar os mais altos padrões trabalhistas, de segurança e ambientais”. No Equador, os investidores chineses estão apoiando seis grandes projetos de produção de energia, mas apenas um deles é um projeto eólico, representando apenas 1,2% do total de financiamento chinês para projetos nacionais de energia. O setor agrícola é igualmente controverso, com a China identificada em um estudo argentino como “o único grande destino de exportação para o qual a intensidade de emissões está crescendo … à medida que a demanda chinesa continua crescendo nos setores de soja e energia, as autoridades argentinas precisarão intensificar esforços para maximizar benefícios e mitigar o risco ambiental ”.

Não existe um caminho único para as empresas chinesas estabelecerem-se como atores ambientalmente responsáveis ​​na América Latina, mas a Iniciativa Belt and Road oferece uma oportunidade. A Declaração Especial sobre a Iniciativa Belt and Road produzida pelo Segundo Fórum CELAC – China declara que “os países da América Latina e do Caribe fazem parte da extensão natural da Rota Marítima da Seda e são participantes indispensáveis ​​na cooperação internacional da Faixa e Estrada”. A BRI provavelmente se engajará em uma ampla gama de projetos de infra-estrutura na região, não menos em agricultura, que a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) considera uma oportunidade para investimentos chineses ambientalmente responsáveis ​​no Brasil.

A declaração da BRI de “Visão e Propostas” se compromete a “conservar o meio ambiente, proteger a biodiversidade e combater as mudanças climáticas”. Um passo importante para o conseguir será o desenvolvimento de orientações para os investidores, recorrendo potencialmente à Declaração Conjunta do Ministério do Comércio e do Ministério do Ambiente para 2013 sobre as Responsabilidades das Empresas Chinesas no Exterior. O Ambiente e o Enquadramento Social desenvolvido pelo Banco Asiático de Investimento em Infra-estrutura (AIIB) para ajudar os países parceiros a cumprir os seus compromissos ao abrigo do Acordo de Paris, fornece mais precedentes. A incerteza sobre o impacto ambiental da BRI persistirá até que tais diretrizes sejam formuladas e se tornem evidentes no local. Como o subtítulo de um artigo recente na China Dialogue pergunta: “Será que a Iniciativa Belt and Road trará devastação ambiental ou uma nova era de administração de recursos globais chineses?”

Setenta países assinaram acordos de cooperação com Belt and Road, quatro dos quais na América Latina. O Brasil ainda não assinou esse acordo, mas está bem colocado para planejar estratégias de engajamento ambiental com a BRI, dada sua colaboração anterior com iniciativas ambientais chinesas e sua liderança na Cúpula da Terra de 1992, o consequente plano de ação da Agenda 21 e a Rio + 20. . O projeto China-Brazil Earth Resources Satellite (CBERS) para monitorar o desmatamento da Amazônia foi 30% financiado pelo Brasil e 70% pela China. Da mesma forma, o Centro China-Brasil para Mudanças Climáticas e Inovação em Tecnologia de Energia concentrou-se nos setores de turbinas eólicas e biocombustíveis. A agricultura brasileira é relevante para ambos os projetos e fornece uma plataforma para uma cooperação mais profunda na sustentabilidade do sistema alimentar. A tecnologia chinesa de estufas verticais, desenvolvida pelo Centro de Engenharia Agrícola e Ambiental Protegida, e a iniciativa Liuzhou Forest City são bons exemplos de inovações de infraestrutura inteligente relevantes para o Brasil. Integrar esses e outros projetos ao BRI exigiria que as empresas chinesas construíssem relacionamentos não apenas com os governos nacionais latino-americanos, mas também com parceiros nos níveis provincial e municipal. Os atores subnacionais geralmente estão mais sintonizados com as preocupações ambientais locais, e trabalhar com eles pode ajudar as empresas chinesas a se manterem a par das preferências e opiniões do público.

As inovações do sistema alimentar na produção orgânica, redução de resíduos, emprego, proteção da terra e sustentabilidade ecológica são tipicamente lideradas por divisões dentro dos governos locais. O governo municipal do Rio, por exemplo, supervisionou a instalação de mais de 40 hortas orgânicas desde 2006 em alguns dos bairros mais marginalizados da cidade por meio do programa Hortas Cariocas. Tais projetos se beneficiariam de ligações com o movimento de alimentos orgânicos em expansão da China, no qual protagonistas como o projeto Shared Harvest em Pequim estão estabelecendo redes internacionais. Facilitar o intercâmbio técnico para melhorar a dinâmica operacional de tais projetos poderia estender essas redes para o Brasil e construir a reputação da BRI como um ator ambiental e socialmente engajado na América Latina.

Conclusão

Embora o Brasil mantenha superávits comerciais anuais invejáveis ​​com a China (US $ 12 bilhões em 2016), o crescimento do agronegócio voltado para a exportação incorre em consequências ambientais e sociais. Essas conseqüências, também evidentes entre os vizinhos exportadores de soja no Brasil, incluem o desmatamento, a contaminação dos cursos de água com pesticidas, a perda de fazendas familiares periurbanas, a migração rural-urbana insustentável e um sistema alimentar cada vez mais industrializado cujos impactos à saúde estão se tornando evidentes.

As conseqüências da produção e consumo industrial de alimentos estão gerando desconfiança na agricultura industrial e pressão para equilibrar os efeitos da agricultura de commodities. Embora a indústria da soja tenha claramente um papel a desempenhar na alimentação das cidades em crescimento no mundo, especialmente porque o consumo de carne suína aumenta entre a classe média emergente da China, levanta-se o desafio de assegurar a diversidade de culturas e salvaguardar a saúde humana. O crescimento macroeconômico exige comércio internacional, mas são necessárias estruturas para proteger as pequenas e médias fazendas que produzem alimentos frescos para consumo local. Pequenos agricultores equipados com o conhecimento e os recursos para a produção orgânica estão bem posicionados para resistir a aquisições territoriais por parte de plantadores de commodities e incorporadoras imobiliárias à medida que a demanda urbana cresce.

Governos municipais, planejadores municipais e líderes comunitários estão descobrindo que as estratégias que eles formulam para melhorar os sistemas alimentares urbanos requerem inovação social tanto quanto conhecimento técnico. Intervenções governamentais direcionadas que promovem a cooperação entre produtores e consumidores são críticas. Esse equilíbrio é possível quando insumos do governo, como títulos de terra, equipamentos e subsídios do pessoal, apóiam os valores da comunidade em relação à segurança alimentar, meios de subsistência e conexão com o processo produtivo.

Do desaparecimento das fazendas periurbanas de alimentos frescos à ansiedade do público em relação aos pesticidas tóxicos, os efeitos colaterais dos alimentos industriais estão voltando para casa. Inovações na agricultura urbana podem diminuir essas conseqüências, mas melhorias sistêmicas exigirão políticas de comércio e investimento agrícolas que sejam mais sensíveis às preocupações locais. A BRI poderia abrir o caminho para uma colaboração de infraestrutura mais sustentável entre a China, o Brasil e a América Latina de forma mais ampla. Como um relatório de 2016 da Academia Chinesa de Ciências Sociais conclui, a China pode usar o BRI para ajudar os países em desenvolvimento a construir suas capacidades de proteção ambiental. Isso exigirá a elaboração e implementação de diretrizes claras para os investidores da BRI e a disposição de cooperar não apenas com os governos nacionais, mas também com os atores municipais e comunitários mais afetados pelos projetos resultantes.

Adrian H. Hearn (Universidade de Melbourne) é um antropólogo que pesquisa o multiculturalismo urbano e os sistemas alimentares. Ele está atualmente estudando como a confiança afeta a produção de alimentos localizada em Pequim, Melbourne, Havana e São Paulo. Financiado pelo Conselho Australiano de Pesquisa (ARC), pelo Departamento de Relações Exteriores e Comércio da Commonwealth (DFAT) e pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), seu trabalho reúne equipes internacionais para comparar desafios, compartilhar histórias de sucesso e formular soluções. Os livros de Adrian incluem Diáspora e Confiança e Cuba: Religião, Capital Social e Desenvolvimento (Duke University Press 2016 e 2008) e (como editora) As Mudanças na Transpacificação e China Engage na América Latina (Lynne Rienner 2016 e 2011). Crédito de imagem: CC pelo Senado Federal / Flickr.

Muito obrigada Adrian pelo excelente artigo ! 

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